Renato Russo uma vez perguntou que país é este. Nossos cientistas sociais - que, aliás, são pensadores dos melhores do mundo, eu, por exemplo, me pergunto como essa sociedade fútil tem conseguido produzir gente do quilate de Emir Sader, Bernardo Sorj, Leandro Konder... - tem se debruçado sobre a esdrúxula missão de responder ao poeta, ao melhor artista que este país já teve. Alguém já disse, acertadamente, que o Brasil não é para amadores.
Agora a moda é Bruna Surfistinha. Tentei ler o livro, "O doce veneno do escorpião", não deu. Pensei que agregaria alguma coisa para minhas elucubrações sociais, afinal, as prostitutas são um segmento da nossa sociedade que explica muito sobre que caminhos estamos seguindo como sociedade tonta que somos. Mas, não deu. Não sei se a moça tentou explicar, ou se nem quis, porque uma menina segue esse caminho, quais fatores sociais levam alguém por optar por uma vida sempre trágica como essa. Embora já soubesse, queria ver a opinião dela.
Vou explicar antes de continuar. Para mim as prostitutas são aquele segmento social de meninas pobres que, vítimas de uma sociedade capitalista que diz que dinheiro é tudo, mergulham em uma vida infeliz para lutar pela sobrevivência, por um lugar ao sol. Não é questão de moralidade. Imoral, para mim, é o desalmado que quebra a previdência social, que tira a comida da merenda escolar das mesas de nossas crianças, que fazem conchavos diabólicos em Brasília para se darem bem à custa do sofrimento, do suor, das lágrimas, do sangue, da dignidade do povo brasileiro. Prostitutas são vítimas de um sistema genocida. Na Holanda pode-se fazer sexo na rua, mas ninguém mete a mão no dinheiro público. No Brasil vivemos uma ideologia católica medieval, pode-se quebrar o país, fazer o diabo, desde que as partes pudendas estejam cobertas. Bem isso é outra história, depois voltamos a ela.
Mas eu ia dizendo que essa escolha resulta em vidas trágicas. Passa o tempo, chega a idade, e aquela menina bonita e cheia de sonhos se descobre um ser humano usado, não um ser humano realizado. Vítima de uma sociedade corrupta, imoral e hipócrita, descobre que não viveu, passou pela vida. Só por isso a escolha é trágica.
Bom, mas voltando ao assunto, a Bruna Surfistinha não explica essa vida. O livro é oportunista, raso, leitura fácil... e o problema ainda não está aqui. O problema é o sucesso do filme, que raios de sucesso é esse? Será que tem muita gente que queria soltar as frangas no lugar dela? Se realiza vendo o filme? Freud foi por aí
Dizia o pai da psicanálise que o sexo liberado seria a vávula de escape das nossas frustações que moram nos nossos inconscientes. Pode ser isso. Aliás, é nisso que dá uma sociedade hipócrita em relação ao sexo, fica reprimindo e quando solta, sai da frente. Vai vendo aí... dizia uma colega, a Martinha.
Teses psicanalíticas a parte, chego agora onde queria. Se as aventuras da alcova alheia fazem tanto sucesso nesse país, se o hedonismo tomou conta dessa sociedade (afinal, fica todo mundo vendo BBB para flagar o momento de uma, digamos, saliência debaixo dos cobertores) fica difícil pararmos para pensar o que fazer com nossos heróis. Dorothy Stang, a freira norte-americana (eu sei... mas esse hífen só fica proibido a partir do ano que vem) lutava no norte desse país por pessoas miseráveis. Morreu covardemente porque lutava por um ideal nobre contra o interesse do poder local. Não é o ideal generalizado de nossa sociedade hedonista. E fico me perguntando se um filme dessa missionária faria tanto sucesso.
Nos anos de chumbo, um militar recebeu uma ordem de explodir o gasômetro da Avenida Brasil , no Rio de Janeiro. Os militares botariam a culpa nos comunistas e teriam álibi para endurecer a perseguição. O problema é que morreriam algo em torno de 100 mil pessoas inocentes. Esse militar recusou cumprir a ordem de seus superiores. Foi cassado pelo AI-5. Morreu de câncer nos anos 90. Pobre e esquecido. Mas sua coragem, de dizer não a uma carnificina engendrada pelo poder militar em plena ditadura, fica como exemplo para qualquer ser humano minimamente lúcido deste país. Pergunto, será que um filme sobre o Capitão Macaco, Capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, faria tanto sucesso? Aliás, alguém conhece o documentário sobre sua vida e esse acontecimento "O homem que disse não", do diretor francês Olivier Horn?
E Divaldo Pereira Franco que tirou milhares de crianças miseráveis das ruas de Salvador, dando-lhes um abrigo e uma profissão, alguém conhece?
É questão de opção social coletiva. Não tenho nada contra "Brunas Surfistinhas" - essa gente é vítima, não algoz - mas fico com um frio na espinha ao perceber o que a nossa sociedade tem elegido como ícones para si, o que sempre está no vazio, no fragmentado, na superfície...
Bruna Surfistinha, BBB, novelas, Ronaldinho... e fico me perguntando quando nossa sociedade irá parar para fazer o que deve: discutir a educação nesse país, a reforma agrária... os rumos que quer para si. Mentiram para o povo brasileiro e ele acreditou. Disseram-lhe que a desigualdade sócio-econômica é natural, é dada por Deus, que o pobre deve trabalhar para ser digno, mas deve se conformar em ser pobre, que é assim mesmo. Quebraram o espírito de um povo que bate palmas para o que é escolhido, não por ele, mas por manipuladores de uma alienação que lucram, e muito, com a exploração.
Que tem algo de muito errado nisso tudo aí, tem.
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